Precisamos falar sobre isso

13321650_1137678376262698_6980852172054732524_nEu não queria falar sobre isso.
Não queria falar sobre isso para não aumentar a sensação coletiva de indignação e impotência. Mas não falar é consentir. Não falar nada contra a violência cotidiana de que nós mulheres sofremos é praticamente dar poderes extras aos que cometem essas barbáries.

São tantos amigos e amigas comentando, manifestando sua perplexidade que, de certa forma, me sinto reconfortada por conhecer tanta gente especial que não culpabilizaria uma menina – ou uma mulher de qualquer idade – por um estupro. Tenho noção de quanto sou abençoada e digo uma coisa, amigos: para sairmos dessa é importante prestar atenção nessas pessoas boas que te cercam e se fortalecer com elas, se unir a elas em coro para mostrar que nenhuma menina, nenhuma mulher está sozinha. Continuar lendo “Precisamos falar sobre isso”

Feedback para os relacionamentos fast-food

É estimulante e certamente útil que as – nem tão novas – tecnologias ajudem tantas pessoas a se aproximarem e iniciarem relacionamentos. O Tinder, por exemplo, é uma mão na roda para quem procura companhia. Conheço casos em que o aplicativo deu início a namoros sérios, mas, o mais comum é que as aproximações não passem do primeiro encontro real. (Até aí, nenhuma novidade também, pois conhecer alguém na balada deve apresentar estatísticas semelhantes.)

Fico me perguntando: já que as pessoas estão aí disponíveis como mercadorias em supermercardo, que tal se tivéssemos um SAC dentro do aplicativo?  Continuar lendo “Feedback para os relacionamentos fast-food”

Para (re)aprender a morar sozinho

1. Em primeiro lugar, aprenda a conversar consigo mesmo. A qualquer hora destas você vai precisar comentar uma notícia bizarra que acabou de ler.

2. É importante saber dosar o pó de café para apenas uma pessoa. Não se esqueça de que isto também inclui a quantidade de água. Depois de uma semana alternando café fraco e fortíssimo, você já estará craque.

3. Lembre-se de que você pode fazer a decoração que quiser no seu “Home sweet home”. Isto inclui abarrotar o aparador de porta-retratos com imagens de suas viagens mais espetaculares. Vale também escrever poesias na parede!

4. Todo mundo vai ao banheiro e, um dia, o papel higiênico acaba. É imprescindível checar as reservas diariamente.

5. Deu vontade de ouvir o som daquela banda anos 80 que é seu ‘lado B’? Coloque o som bem alto e dance feito um alucinado.

6. Você vai perceber que a louça não incomoda tanto, pois lavar uma xícara e um prato é algo que dá pra fazer enquanto se pensa na roupa que vai vestir nos próximos minutos.

7. Contemple o silêncio. Ele pode ser tão revelador!

8. O telefone tocou e você tá com preguiça de atender? Relaxe… se for importante vão procurar por você novamente. O telefone é seu, você atende se quiser.

9. Imagine só o espaço que você vai ter para organizar seus pertences – e principalmente suas roupas – do jeito que melhor lhe convier. Suas coisinhas queridas merecem um dia-a-dia mais digno.

10. Bateu saudade daquela amiga distante? Faça um interurbano – e por que não, uma chamada internacional – sem culpa. Você não terá que dividir as despesas mesmo!

E, por fim, o mais importante de tudo: curta a sua companhia. E, ao cruzar com o espelho, sorria e diga: “Bom dia, meu melhor amigo!”

Para Uma Menina Com Uma Flor

Capa Nova
Capa da Edição Atual

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinicius de Moraes

Parte da coletânea de crônicas reunidas em livro de mesmo nome (Resenha MPBits)