Precisamos falar sobre isso

13321650_1137678376262698_6980852172054732524_nEu não queria falar sobre isso.
Não queria falar sobre isso para não aumentar a sensação coletiva de indignação e impotência. Mas não falar é consentir. Não falar nada contra a violência cotidiana de que nós mulheres sofremos é praticamente dar poderes extras aos que cometem essas barbáries.

São tantos amigos e amigas comentando, manifestando sua perplexidade que, de certa forma, me sinto reconfortada por conhecer tanta gente especial que não culpabilizaria uma menina – ou uma mulher de qualquer idade – por um estupro. Tenho noção de quanto sou abençoada e digo uma coisa, amigos: para sairmos dessa é importante prestar atenção nessas pessoas boas que te cercam e se fortalecer com elas, se unir a elas em coro para mostrar que nenhuma menina, nenhuma mulher está sozinha.

Infelizmente, existem eles, OS OUTROS, que habitam o mesmo planeta que nós, o mesmo país, o mesmo estado… eles podem estar ali na esquina te esperando, ou não. O mais assustador é que eles podem estar dentro da sua própria casa. A verdade é que eles não são os OUTROS. Eles estão entre nós.

Não parece, mas eles, os estupradores – ou simplesmente aqueles que acham que tem mulher que merece – nasceram de mulheres. Foram criados por elas, que, provavelmente, até lhes deram muito carinho e tentaram lhe mostrar o que é respeito ao próximo e à próxima, mas eles se esqueceram disto.

Eles, os que pensam desta forma, podem ser qualquer um, podem ser seu colega, seu parente, seu irmão, seu pai, seu professor, seu tio. Pode até ser sua amiga, sua tia, sua mãe. ELES SOMOS NÓS.

Nós nos alimentamos de publicidade que objetifica a mulher, de discursos misóginos nos bares, nas igrejas, nas faculdades. Nos alimentamos de piadinhas no facebook ou no whatsapp que denigrem a figura da mulher.

Reiteramos o discurso de que existem mulheres para “isso” e mulheres para “aquilo”. Reforçamos conceitos de que uma mulher “tem que se dar ao respeito” e que “mulher que se preze usa roupa decente e precisa ter um macho que a defenda”.

NÃO! Nós, mulheres, não precisamos ter cuidado por onde andamos ou com o que vestimos! Não precisamos nos privar de nos divertir porque alguém pode abusar de nós. Não precisamos, nem devemos, ter medo de sair de casa ou de viver em paz em nosso lar.

PRECISAMOS, SIM, É FALAR – gritar até, se for preciso, para que nossas vozes sejam ouvidas.

É urgente denunciar, apontar o dedo, até que cada ser deste planeta entenda que todos e todas somos seres humanos dignos de respeito. E que, se houver briga de homem e mulher, que se meta, sim, a colher e que se ampare a quem precisar de acolhimento – em casa, nos consultórios, nas delegacias.

É urgente e imprescindível falar sobre o quão abominável é essa “cultura do estupro” até que cada uma das pessoas que habita esse planeta entenda que a luta diária das mulheres em não se deixar oprimir não é mimimi. É uma necessidade real que, de forma alguma, pretende rebaixar o homem. É um item de sobrevivência que todos nós sejamos considerados plenos e iguais. O machismo não faz bem nem ao próprio homem!

É preciso escrever, falar, cantar, desenhar, gritar até que todos compreendam que cada uma é livre para andar por onde quiser, viver da forma que desejar, sem julgamentos ou falta de respeito. Já passou da hora de todos entenderem que somos donas de nossos próprios corpos, que não temos senhorio e nem encostaremos o umbigo em qualquer lugar que seja, se não for de nossa livre e espontânea vontade. É fundamental que os homens – e mulheres também – adquiram essa consciência.

ESTAMOS TODAS FERIDAS, ESTAMOS TODOS FERIDOS. Precisamos nos curar. Um caminho para essa cura é que esse trabalho de limpeza do coletivo não seja feito incitando a violência – o que é extremamente difícil, eu sei -, mas com muito cuidado e perseverança.

Comece conversando com as pessoas à sua volta sobre o quanto é importante que entendam e respeitem a liberdade de uma mulher. Peça ajuda aos homens que te entendem para que eles conversem com outros homens, mostrando o quanto subjugar uma mulher e reproduzir o discurso de que ela é menos capaz não fortalece ninguém, só nos diminui a todos – homens e mulheres – enquanto seres humanos.

Precisamos nos lembrar de que essa barbárie vem de milhares de anos e que a transformação já está acontecendo. É preciso ser otimista e seguir adiante, pois já foram muitos avanços em apenas algumas décadas. Não nos deixemos abater pelas últimas notícias policiais e políticas. Sigamos em frente, semeando a igualdade e o amor.

Gratidão, amigos, por não se calarem e não me deixarem calar. Essa é uma causa de todas nós. E de todos nós!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s