“Criação não é talento, é trabalho árduo”

criatividadeO que a extinção dos dinossauros e a evolução da espécie têm a ver com criatividade? É isso o que o palestrante escocês Charles Watson procurou demonstrar durante o Workshop  O Processo Criativo, realizado no SENAI Florianópolis, de 20 a 22 de novembro.

Segundo ele, a evolução é um processo caótico de informação com metas indefinidas. O mesmo acontece com o processo de criação, que precisa encontrar soluções para possibilidades futuras desconhecidas. Desta forma, um sistema robusto feito um dinossauro, ou seja, uma empresa ou profissional que não disponham de flexibilidade e de preparação para o novo estão mais vulneráveis e tendem a ficar para trás.

O que Watson quer dizer com tudo isso é que o criativo, seja artista, seja um profissional de qualquer área ou empreendedor, deve absorver os mais variados tipos de conteúdo, até os que possam ser considerados “informação inútil” num primeiro momento. Mas, é essa bagagem cultural, o trabalho árduo na sua área de atuação e a sua capacidade de conectar informações aparentemente desconexas que farão a diferença no seu processo criativo, levando à expressão máxima de sua criatividade.

O que é criatividade?

Para o palestrante, que também é artista, mentor de grandes profissionais da área artística e estudioso da neurociência, existem três pré-requisitos para a criatividade:

  1. A existência de uma linguagem simbólica.
  2. O envolvimento de uma pessoa ou grupo capaz de fazer transformações dentro dessa linguagem.
  3. Um grupo pequeno de peritos capazes de descobrir algo importante que acabou de acontecer.

Dentro desse universo, então, as crianças não seriam seres criativos. “Crianças são espontâneas, apaixonadas, curiosas e não têm medo de formular perguntas”. Mas isso, por si só não é suficiente para caracterizá-las como criativas, uma vez que elas não têm informações importantes de determinadas áreas de atuação para realizar conexões a ponto de causar uma transformação dentro de uma linguagem.

Errar é criativo

Chegando ao mundo adulto, vamos perdendo a capacidade de ser divergente e passamos a ter medo de errar. Isso no contexto profissional ou, ainda pior, dentro de uma organização, pode ser extremamente danoso. “Qualquer sistema que tenta eliminar o erro, está fadado ao fracasso”, sentencia.

É comprovado cientificamente que os grandes gênios têm praticamente a mesma proporção de erros e acertos de uma pessoa considerada normal. A diferença é que eles têm mais ideias. “A maioria de suas ideias vão ser descartadas. Se você não respeitar isso, não fará nada de importante”.

Talento não é inato

Ninguém nasce gênio, torna-se gênio. Talento seria irrelevante dentro de uma vida inteira criativa, uma vez que ninguém nasce tocando piano, por exemplo. Pesquisas em neurociência realizadas nos últimos 30 anos comprovam que não existe forma de aprender algo por meio da genética. O que acontece é a predisposição para determinada área, uma tendência a ser mais receptivo a aprender certas atividades. Só com dedicação e trabalho árduo, poderíamos, então, alcançar a excelência que é vista como talento.

A paixão como combustível

Nesse sentido, a paixão seria um fator necessário para o sucesso. Fazer a diferença em sua área de atuação requer paixão, pois só com ela você consegue a energia necessária para os recursos intermináveis que a criatividade exige.

Movidos pela paixão é que somos capazes de tolerar mais o desconforto de passar horas intermináveis em um laboratório, escritório ou ateliê e, acima de tudo, confrontar limites. Só alguém muito obstinado pelo que faz seria capaz de virar o Ano Novo trabalhando por vontade própria em algum projeto.

Regra dos 10 anos

Watson explica a importância da regra dos 10 anos: esse seria o tempo necessário para um profissional criativo fazer algo de significativo. É o tempo de internalizar informações e produzir algo realmente novo e relevante, ou seja, de identificar problemas e transpor obstáculos para resolvê-los.

Isso tudo exige abdicação do eu, focar em algo que seja mais importante do que você e dedicar-se a isto. Grandes nomes como Michelangelo e Ayrton Senna teriam dito no auge de suas conquistas que “não era eu lá”. O que Watson quer dizer com esses exemplos é que você se torna um serviço do que está fazendo. Músicos, cientistas e vitoriosos do Prêmio Nobel confirmaram que “sumiram” no processo de criação.

Transcender é preciso

É preciso não só abdicar do “eu” como entender a plateia/ espectadores/ leitores como um mal necessário, mas não como o foco do trabalho. O objetivo seria a busca por um nível de excelência inabalável. Questionado por um jornalista sobre qual seria o seu público, Nelson Rodrigues teria respondido: “eu escrevo para Shakespeare!”.

A dançarina e coreógrafa Déborah Colker diz que “uma crítica pode atrapalhar meu café da manhã, meu almoço jamais”.

Criar é restringir

Déborah tanto quanto outros artistas das mais variadas áreas de atuação são praticamente unânimes em dizer que não existe uma total liberdade criativa. “O tudo pode é o maior inimigo que o criativo pode ter. Não é fácil, mas é o único caminho possível”, sentencia.

A artista Lia Rodriguez é categórica ao sustentar a tese: “Criação é restrição. Como trabalhar com o mundo inteiro”. Faz parte do processo criativo moldar por meio da restrição, definindo estratégias e procedimentos.

“Criação tem a ver com muito trabalho, com jogar muita coisa fora e moldar o que foi selecionado. Criação tem a ver com o ‘até onde eu consigo ir com esses limites?”

Para quem pensa diferente, um alerta: “Baixar o santo não existe!”, cutuca Watson.

 

Michelle Araújo é jornalista, produtora de conteúdo, poeta e uma apaixonada pelo meio artístico.

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4 comentários em ““Criação não é talento, é trabalho árduo”

  1. Sensacional e inspirador o teu texto, Mi! Imagino que o curso tenha sido ainda mais e o legal de tudo isso é realmente multiplicar esse conhecimento. To aqui cheia de ideia e morrendo de vontade de fazer um monte coisas! heheh Parabéns e sucesso! 🙂

    1. Muito obrigada, querida! Vindo de você, é ainda mais empolgante ler um comentário desses. Beijo e sucesso nos teus projetos!

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