Inquietudes em Pessoa

Admiro a obra de Fernando Pessoa sobretudo pela acidez dos pensamentos. Em Livro do Desassossego esta característica está ainda mais latente. Gosto de ler seus trechos salteados, imaginando que o narrador é como aquele tio velhinho e ranzinza, contundente nos comentários, mas de incontestável sabedoria. Em alguns momentos, faz a gente rir de tamanha amargura. Em outros, provoca reflexões: “será que ele tem razão?”, “ah, ele está sendo irônico!”.

No livro, o heterônimo do autor Bernardo Soares é uma figura que teme, que sonha, que critica e que, acima de tudo, expõe seus conflitos internos e a inquietude de ser uma pessoa de carne, osso e sentimentos.

“Não há que buscar em quaisquer deles idéias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler”, disse Fernando Pessoa sobre seus heterônimos.

Quer saber a diferença ente pseudônimo e heterônimo? Confere aqui.

E pra conhecer um pouco do Livro do Desassossego, recomendo a visita a este blog, que traz trechos bem interessantes.

Degustando Fernando Pessoa

No último dia 13 de junho Fernando Pessoa completaria 122 anos. Minha ideia era fazer este post naquela data, mas só hoje consegui parar para selecionar uma poesia que bem definisse minha relação com a sua obra. Peguei o Livro do Desassossego em mãos e o texto “Mania de bem sonhar” acabou me lembrando aquela que pra mim é uma de suas melhores poesias. Enfim, entendi que este meu Adiamento já lhe prestava uma homenagem, ainda que inconsciente:

  • Adiamento
      Álvaro de Campos
  • Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
    Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
    E assim será possível; mas hoje não…
    Não, hoje nada; hoje não posso.
    A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
    O sono da minha vida real, intercalado,
    O cansaço antecipado e infinito,
    Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
    Esta espécie de alma…
    Só depois de amanhã…
    Hoje quero preparar-me,
    Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
    Ele é que é decisivo.
    Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
    Amanhã é o dia dos planos.
    Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
    Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
    Tenho vontade de chorar,
    Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

    Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
    Só depois de amanhã…
    Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
    Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
    Depois de amanhã serei outro,
    A minha vida triunfar-se-á,
    Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
    Serão convocadas por um edital…
    Mas por um edital de amanhã…
    Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
    Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
    Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
    Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
    Antes, não…
    Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
    Só depois de amanhã…
    Tenho sono como o frio de um cão vadio.
    Tenho muito sono.
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
    Sim, talvez só depois de amanhã…

    O porvir…
    Sim, o porvir…

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  • Em tempo: Gosto tanto de Adiamento que escolhi um de seus trechos para meu discurso de formatura, em 1999.
  • ET 2: Esta poesia não tem tudo a ver com os brasileiros, especialmente em época de Copa? 😉
  • ET 3: O Livro do Desassossego vale um post exclusivo, que logo publicarei aqui.