Enigmas de Clarice

“Se fosse inventada uma escala para medir abalos sísmicos literários, por certo, tudo que Clarice Lispector escreveu atingiria grau máximo. Ela era um terremoto completo”, diz Gastão Moreira, na apresentação deste especial em comemoração aos 30 anos da TV Cultura, que resgatou uma entrevista dada pela escritora ao jornalista Júlio Lerner em 1977.

Para quem gosta da obra dela, definitivamente vale a pena conferir estes três blocos de entrevista de uma Clarice sem nenhuma pretensão em agradar. Enigmática e ao mesmo tempo objetiva, ela responde apenas o que considera pertinente, sem perder a classe.

“Eu não sou nenhuma profissional. Só escrevo quando quero.”

“Só estou triste hoje porque estou cansada. De um modo geral, sou alegre.”

“Quando não escrevo, eu estou morta.”

Repórter: “Qual o papel do escritor brasileiro hoje em dia?” Clarice: “O de falar o menos possível”.

Confira e tente decifrar alguns enigmas de Clarice:

* Saiba mais sobre a biografia de Clarice.
* Resenha sobre “O ovo e a galinha”, o ‘filho’ preferido da autora.

Anúncios

Adorável surpresa

Estava ligada no Twitter quando minha amiga e xará @michelexavier tuitou uma frase de Clarice Lispector, seguida de um link. Como adoro a obra dela (e aliás estou há dias me prometendo um post especial sobre ela aqui), cliquei. O endereço levava para a o poema a seguir, Súplica, de Miguel Torga, um autor português, que acabei de conhecer. O link da Michele estava errado, mas para mim, a descoberta foi certeira.
Enjoy it!

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

Virgem – Vinicius de Moraes

*VIRGEM*
(de 23 de agosto a 22 de setembro)

Se Florence Nightingale era Virgem
Não sei… Mas o mal é de origem.
A mulher de virgem aceita a amante
Isto é: desde que não a suplante.
Sexo de consumo, pães-de-minuto
Nada disso lhe há de faltar
O condomínio é absoluto
A virgem é mulher do lar.
Opala, safira, turquesa
São suas pedras astrais
Na cuca muita esperteza
Na existência muita paz.

Vinicius de Moraes