Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

(Vinicius de Moraes)

Rio de Janeiro, 1935

in Forma e exegese
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O sentimento do sublime”

Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca, in Charneca em Flor (1930)

* Esta é outra poeta sensacional, que admiro muito. Florbela Espanca (nome intrigante, não?), nasceu em Alentejo, Portugal, em 1894, e faleceu em 1930. Difícil imaginar numa primeira leitura que este seja um poema tão antigo. Belíssimo e ao mesmo tempo tão atual. Outras obras dela aqui.

Soneto da Separação – Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Who is Alice Ruiz?

Você já teve a sensação de que um texto escrito por alguém poderia ser perfeitamente seu, tamanha a identificação com a mensagem e com as palavras escolhidas? Que isto acontece de vez em quando com qualquer um não é novidade. Agora é impressionante a relação que a gente tem com a obra de alguns autores em particular.

Meu primeiro encontro com a poesia de Alice Ruiz foi assim: um sopro de vida, um arrepio na alma, um estranhamento delicioso. Li aquelas palavras e pensei “gente, esta mulher plagiou meus pensamentos!” E fiquei profundamente feliz por descobrir depois que, ao contrário de outros grandes poetas que admiro, ela está muito viva e, espero, tenha ainda muitos anos de produção pela frente. Alice é viúva de outro grande poeta, Paulo Leminski, com quem teve três filhos.

Já estava devendo um post a ela e, hoje que consegui, encontrei este vídeo muito fofo baseado numa bela composição dela – que, inclusive, também foi gravada por Arnaldo Antunes. Esta versão é cantada por Lua:

Se tudo pode acontecer

Se pode acontecer qualquer coisa

um deserto florescer

uma nuvem cheia não chover

 

pode alguém aparecer

e acontecer de ser você

um cometa vir ao chão

um relâmpago na escuridão

 

e a gente caminhando de mão dada

de qualquer maneira

eu quero que esse momento dure a vida inteira

e além da vida ainda de manhã no outro dia

se for eu e você

se assim acontecer

 

se tudo pode acontecer…

“Love me like a man”, canta Diana Krall

Adoro a Diana Krall e, pesquisando no YouTube, acabei encontrando esta apresentação maravilhosa dela no programa do Dave Letterman, de 2006. Gosto do jeito sóbrio dela de interpretar, onde a emoção fica essencialmente na voz. Mesmo sentada, ao piano, ela dá o seu recado:

Love Me Like A Man

The men that I’ve been seeing
Tthey got their soul up on a shelf
You know they could never love me
When they can’t even love themselves

And I want someone to love me
Someone who really understands
Who won’t put himself above me
Who just love me like a man

I never seen such losers darling
Even though I tried
To find a man who can take me home instead of
Taking me for a ride
And I need someone to love me
Darling I know you can’t
Don’t you put yourself above me
You just love me like a man

They all want me to rock them
Like my back ain’t got no bone
I want a man to rock me
Like my backbone was his own

Darling I know you can’t
Believe it when I tell you
You can love me like a man

Came home sad and lonely
I feel like I wanna cry
Want a man to hold me
Not some fool who ask me why
And I need someone to love me
Baby you can’t
Don’t you put yourself above me
Just love me like a man