Tatuagem – Chico Buarque

Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem…

E também prá me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava…

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem…

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço…

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem…

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva…

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes…

Retrato em Luar

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Meus olhos ficam neste parque,

minhas mãos no musgo dos muros,

para o que um dia vier buscar-me,

entre pensamentos futuros.

Não quero pronunciar teu nome,

que a voz é o apelido do vento,

e os graus da esfera me consomem

toda, no mais simples momento.

São mais duráveis a hera, as malvas,

que a minha face deste instante.

Mas posso deixá-la em palavras,

gravada num tempo constante.

Nunca tive os olhos tão claros

e o sorriso em tanta loucura.

Sinto-me toda igual às árvores:

solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,

meus braços ao longo dos ramos:

e, no vago rumor das fontes,

uma voz de amor que sonhamos.

(Cecília Meireles)

Choro Bandido – Chico Buarque e Edu Lobo


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons