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Escrevo para dividir anseios e completar minha alma.

Mas as palavras me fogem e a prateleira segue cheia de frascos vazios.

Tudo o que penso parece absurdo. Meus dedos estão mudos.

Michelle Araújo, 05/07/2010.

No último dia 13 de junho Fernando Pessoa completaria 122 anos. Minha ideia era fazer este post naquela data, mas só hoje consegui parar para selecionar uma poesia que bem definisse minha relação com a sua obra. Peguei o Livro do Desassossego em mãos e o texto “Mania de bem sonhar” acabou me lembrando aquela que pra mim é uma de suas melhores poesias. Enfim, entendi que este meu Adiamento já lhe prestava uma homenagem, ainda que inconsciente:

  • Adiamento
      Álvaro de Campos
  • Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
    Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
    E assim será possível; mas hoje não…
    Não, hoje nada; hoje não posso.
    A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
    O sono da minha vida real, intercalado,
    O cansaço antecipado e infinito,
    Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
    Esta espécie de alma…
    Só depois de amanhã…
    Hoje quero preparar-me,
    Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
    Ele é que é decisivo.
    Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
    Amanhã é o dia dos planos.
    Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
    Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
    Tenho vontade de chorar,
    Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

    Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
    Só depois de amanhã…
    Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
    Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
    Depois de amanhã serei outro,
    A minha vida triunfar-se-á,
    Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
    Serão convocadas por um edital…
    Mas por um edital de amanhã…
    Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
    Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
    Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
    Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
    Antes, não…
    Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
    Só depois de amanhã…
    Tenho sono como o frio de um cão vadio.
    Tenho muito sono.
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
    Sim, talvez só depois de amanhã…

    O porvir…
    Sim, o porvir…

*******************************
  • Em tempo: Gosto tanto de Adiamento que escolhi um de seus trechos para meu discurso de formatura, em 1999.
  • ET 2: Esta poesia não tem tudo a ver com os brasileiros, especialmente em época de Copa? ;-)
  • ET 3: O Livro do Desassossego vale um post exclusivo, que logo publicarei aqui.

Sem minhas inquietudes sou uma velha senhora chamada Inércia.

Para quem quer dar um toque especial na sua casa, segue uma ideia bem interessante: adesivos decorativos. Eles estão disponíveis em uma infinidade de formas, cores e tamanhos – podendo até ser customizados (sim, você pode usar um trabalho seu!).

Estes trabalhos você pode conferir no site da Diz Decor. O catálogo deles é bem extenso, com certeza você vai achar diversos desenhos interessantes (ou encomenda um personalizado!!).

Mantendo a “veia poética” do Mundanado, escolhi alguns para ilustrar o post (por motivos óbvios):

Obs.: o meu preferido aí em cima é o do “nosso amigo” Fernando Pessoa:

“O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Quando estava dando uma olhada neste livro, ainda na livraria, eu fiquei pensando em quantas pessoas gostam de poesia mas – por algum motivo (indicação, falta de conhecimento, preferência, preguiça, T.O.C) – ficam sempre nos mesmos autores. Como ter uma noção geral da poesia brasileira neste último século, de uma maneira bem abrangente?

Acredito que isso possa ter passado pela cabeça de Italo Moriconi quando publicou esta seleção. Pelo menos foi o que EU pensei quando vi o livro.

Confesso ter meus autores preferidos, mas também admito (momento terapia) que por N motivos me mantive lendo os mesmos de sempre. Na real, é um pouco de tudo que citei lá em cima…

Ao dar uma lida nesta seleção, descobri diversos escritores que nunca tinha ouvido falar. Com isso, descobri uma maneira gostosa de ter uma visão geral da poesia brasileira e já estou com alguns nomes anotados para ir atrás e buscar saber mais da obra. Indico a todos.

Vou transcrever um deles (de um dos “novos” escritores) em um próximo post.

Segue link sobre o livro.

Fotografia: Renata Baião

Foto: Renata Baião

Saudades de quem não fui
Desejos por quem passou
Receios do vir a ser

Pressinto que sem querer
Voltei a ser quem não sou
E, ao longe, dentro de mim
Uma voz me diz pra seguir

Persigo mais uma vez
Retalhos – do quê, não sei
Uma porta, um enigma
Talvez uma resposta
Ou uma passagem só de ida.

Michelle Araújo, 20/09/09

Sintam o poema abaixo e me digam: será possível ler Quintana sem se apaixonar? Será possível entrar em contato com a obra do poeta sem amá-la? Se você, por algum motivo ficar indiferente a esta poesia, por favor, vá logo tratar esta melancolia! ;-)

Com vocês, Amar!

AMAR

Amar: Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…

O amor é quando a gente mora um no outro.

(Mário Quintana)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

(Vinicius de Moraes)

Rio de Janeiro, 1935

in Forma e exegese
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “O sentimento do sublime”

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca, in Charneca em Flor (1930)

* Esta é outra poeta sensacional, que admiro muito. Florbela Espanca (nome intrigante, não?), nasceu em Alentejo, Portugal, em 1894, e faleceu em 1930. Difícil imaginar numa primeira leitura que este seja um poema tão antigo. Belíssimo e ao mesmo tempo tão atual. Outras obras dela aqui.

Eclipse da Lua em Calábria, Itália, 2004

O dia devia partir mais devagar
para me deixar estar e admirar o pôr-do-sol.
O pensamento não consegue acompanhar
notícias, vontades, necessidades.
Onde ficou o meu direito de querer?

Vivemos três vidas em uma
e 48 horas de bônus seriam migalhas
para a fome que tenho do mundo.

Eclipse da Lua. Calábria, Itália, 2004

É preciso ver mais, ouvir mais, sentir mais.
O real e o paralelo me consomem.
Não tenho mais certeza do que é transitório.

Meu território não é aqui, não é lá.
Estamos todos interligados pela teia
E o dia-a-dia é só uma reação em cadeia.

Michelle Araújo, 09/05/09

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