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De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Nova York, 1950
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.
Uma coisa branca
De carne, de luz,
Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,
Uma coisa branca,
Doce e profunda,
Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.
Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,
Uma coisa branca
Para me encostar
E afundar o rosto.
Talvez um seio,
Talvez um ventre,
Talvez um braço,
Onde repousar.
Eis o meu desejo,
Uma coisa branca
Bem junto de mim,
Para me sumir,
Para me esquecer,
Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Extraído do livro “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século“
Estava ligada no Twitter quando minha amiga e xará @michelexavier tuitou uma frase de Clarice Lispector, seguida de um link. Como adoro a obra dela (e aliás estou há dias me prometendo um post especial sobre ela aqui), cliquei. O endereço levava para a o poema a seguir, Súplica, de Miguel Torga, um autor português, que acabei de conhecer. O link da Michele estava errado, mas para mim, a descoberta foi certeira.
Enjoy it!
SÚPLICA
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Miguel Torga
*VIRGEM*
(de 23 de agosto a 22 de setembro)
Se Florence Nightingale era Virgem
Não sei… Mas o mal é de origem.
A mulher de virgem aceita a amante
Isto é: desde que não a suplante.
Sexo de consumo, pães-de-minuto
Nada disso lhe há de faltar
O condomínio é absoluto
A virgem é mulher do lar.
Opala, safira, turquesa
São suas pedras astrais
Na cuca muita esperteza
Na existência muita paz.
Vinicius de Moraes
Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo…
Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar…
Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos…
Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente…
Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado…
Isto é circunstância!
Solidão é muito mais do que isto…
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.
