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Maria Gadú

Não sei se todos já ouviram falar de Maria Gadú. Ela é considerada a nova sensação do cenário musical brasileiro. Uma paulistana radicada no Rio, 22 anos com uma voz deliciosa. Explico: o timbre dela é daqueles meio roco, meio preguiçoso, gostoso de ouvir. Super afinada, Maria Gadú ainda tem um excelente gosto pra repertório e arranjos.

No seu CD de estréia, destaco 2 faixas: A História de Lilly Braun (Chico Buarque) e Baba (Kelly Key). Tudo é bom (tem várias levadas gostosas, vale ouvir o CD todo) mas estas duas tem um sabor especial.

A versão dela para a música do Chico ficou totalmente jazz, com muito swing, totalmente solta. Com certeza Chico deu um sorriso…

A releitura de Baba (aquela Baba Baby) me impressionou mais pelo fato de, na sua versão original, ter ficado com uma cara específica – aquela cara de que vai ser aquilo e nunca ninguém vai querer mexer com ela.. Engano total: a versão da Maria Gadú, acústica, deixou espaço para se ouvir sua voz envolvente e a música ainda ganhou nova vida no arranjo intimista e exato. Sem mais nem menos. Foi o que tinha que ser. Mais um ponto pra ela.

No CD tem ainda uma versão de “Ne Me Quitte Pas” (Jacques Brel) e a famosa (tá na rádio direto) “Shimbalaiê”, que se significa algo, desconheço…

Você já teve a sensação de que um texto escrito por alguém poderia ser perfeitamente seu, tamanha a identificação com a mensagem e com as palavras escolhidas? Que isto acontece de vez em quando com qualquer um não é novidade. Agora é impressionante a relação que a gente tem com a obra de alguns autores em particular.

Meu primeiro encontro com a poesia de Alice Ruiz foi assim: um sopro de vida, um arrepio na alma, um estranhamento delicioso. Li aquelas palavras e pensei “gente, esta mulher plagiou meus pensamentos!” E fiquei profundamente feliz por descobrir depois que, ao contrário de outros grandes poetas que admiro, ela está muito viva e, espero, tenha ainda muitos anos de produção pela frente. Alice é viúva de outro grande poeta, Paulo Leminski, com quem teve três filhos.

Já estava devendo um post a ela e, hoje que consegui, encontrei este vídeo muito fofo baseado numa bela composição dela – que, inclusive, também foi gravada por Arnaldo Antunes. Esta versão é cantada por Lua:

 

Se tudo pode acontecer

Se pode acontecer qualquer coisa

um deserto florescer

uma nuvem cheia não chover

 

pode alguém aparecer

e acontecer de ser você

um cometa vir ao chão

um relâmpago na escuridão

 

e a gente caminhando de mão dada

de qualquer maneira

eu quero que esse momento dure a vida inteira

e além da vida ainda de manhã no outro dia

se for eu e você

se assim acontecer

 

se tudo pode acontecer…

Adoro a Diana Krall e, pesquisando no YouTube, acabei encontrando esta apresentação maravilhosa dela no programa do Dave Letterman, de 2006. Gosto do jeito sóbrio dela de interpretar, onde a emoção fica essencialmente na voz. Mesmo sentada, ao piano, ela dá o seu recado:

Love Me Like A Man

The men that I’ve been seeing
Tthey got their soul up on a shelf
You know they could never love me
When they can’t even love themselves

And I want someone to love me
Someone who really understands
Who won’t put himself above me
Who just love me like a man

I never seen such losers darling
Even though I tried
To find a man who can take me home instead of
Taking me for a ride
And I need someone to love me
Darling I know you can’t
Don’t you put yourself above me
You just love me like a man

They all want me to rock them
Like my back ain’t got no bone
I want a man to rock me
Like my backbone was his own

Darling I know you can’t
Believe it when I tell you
You can love me like a man

Came home sad and lonely
I feel like I wanna cry
Want a man to hold me
Not some fool who ask me why
And I need someone to love me
Baby you can’t
Don’t you put yourself above me
Just love me like a man


Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

Um certo dia eu conheci, depois de “velho”, um primo meu da minha idade (também músico) e com o gosto musical muito parecido com o meu. Era um verão em Búzios. Ele veio até onde eu estava na areia e disse: “Muito prazer, eu sou o seu primo Alexandre, e você deve ser o meu tão falado primo Edmundo”.

15 minutos depois de falarmos sem parar de todas as nossas coincidências e afinidades, estávamos os dois, sentados na varanda da casa tocando violão como se fossemos parceiros a anos! Nunca vou me esquecer deste dia. Como que eu nunca tinha cruzado com esse primo antes? Que tempo perdido!

De lá pra cá, estamos sempre juntos, meu filho tem o mesmo nome dele e, é claro, meu primo é padrinho do pequeno.

Xande e Dindo Xande

Xande e Dindo Xande

Sempre que sentamos para tocar, quem está perto se impressiona. Não pelos virtuosismos e escolha de repertório, mas pela mágica que sai desse encontro. Como entender as melodias que nunca foram combinadas e que se encaixam como em um ensaio meticuloso? Os improvisos totalmente encaixados como se fossem escritos para aquela música, as modulações sem aviso e prontamente sub-entendidas e seguidas, as dinâmicas decididas e executadas exatamente como imaginávamos…

Esse é meu primo Alexandre Castilho. Roubando uma de suas mais conhecidas expressões: GÊNIO! Sou um privilegiado de ter ele como primo, família e AMIGO. Desde que nos encontramos na tal vez da praia (e isso já fazem quase 20 anos?), NUNCA nos desentendemos por motivo que fosse e nunca deixamos de fazer festa quando nos encontramos. Fica aqui minha eterna homenagem ao Xande, gênio!

Isso “dito”, eu tomo a liberdade de compartilhar um dos vários momentos que tivemos (mas poucos gravados): Uma vez no Rio, eu pedi para ir no estúdio dele gravar um arranjo que tinha feito de “Trocando em Miúdos”, do Chico Buarque, para violão solo. Ele operando a mesa e eu, no “aquário”, tocando. Ficou razoável (minha auto-crítica é bem severa!), ele deu várias dicas de dinâmica, posição do microfone, etc.. e saiu. Beleza.

Depois do trabalho feito, eu ainda dentro do aquário e ele lá fora na mesa, ele resolveu pegar a sua guitarra (nem vou comentar ele tocando… ) e ficar brincando nas escalas enquanto conversávamos pelo sistema de som. Num dado momento, pedi para ele deixar gravando que queria testar a sonoridade do meu violão (que estava ótima, sem nenhum efeito ficou ótimo mesmo)… Comecei a tocar acordes soltos e me lembrei, por um acorde que fiz, de Águas de Março (Tom Jobim).. Comecei a ordenar os acordes e o Xande sacou na hora qual era a harmonia. Ele de fora, com a guitarra, começou a me acompanhar e – como sempre acontece com a gente – quando vimos estávamos tocando nossa versão, de improviso, do tema!

O que foi gravado foi em uma única tomada, sem cortes ou emendas. Totalmente sem pretensão e compromisso com nada, exceto nossa diversão.

A pedido da Michelle, resolvi compartilhar isso com vocês. Espero que gostem:

Águas de Março – por Edd e Xande

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