Estou particularmente nostálgica hoje.

Sinto falta do amigo que, além de livros, me emprestava a sua lucidez.

Do pai emprestado, me faltam os gestos carinhosos, muitas vezes inesperados.

Da amiga mais antiga, tão bom recordar sua farta memória, lembrando de detalhes das mais curiosas histórias.

Da tia já não tão novinha, as brincadeiras em frente ao espelho, na tentativa de adivinhar o futuro: quem será a mais bela?

Da professora de artes - e também amiga -, as atitudes desmedidas, espontâneas, divertidamente extrovertidas.

De uma certa paixão, o calor, o frescor, o sabor, a contemplação e a diversão. Tudo ao mesmo tempo aqui dentro e lá fora.

De um amor bem antigo, o ombro amigo, o afago no ego, a companhia mesmo à distância, a lembrança em fases de esquecimento.

Da amiga – agora distante, a coragem, o despreendimento, a alegria errante, os amigos constantes em qualquer lugar.

Dos companheiros de festa, retratos de uma época feliz, sem temores, sem dores, repletas de amores fugazes.

De alguém que se foi, a garra, o jeito tão leve de encarar a vida, uma grande tolerância, sabedoria em pensar – e agir – diferente.

Do amigo improvável, vindo do outro lado do oceano, as descobertas de um novo -velho – mundo, cheio de sabores e prazeres.

Do relacionamento mais longo, promessas, erros, acertos , enganos e o melhor presente do mundo, que é um capítulo à parte.

Mas, não, isso não é despedida, é uma carta sincera, de agradecimento a tanta gente querida que quero voltar a sentir.

Michelle Araújo, 26/07/11